Empresa diz ter achado 200 toneladas de ouro no mar. Se for verdade, quem fica com o tesouro?

Destroços encontrados seriam de embarcação russa afundada há 113 anos, durante a guerra russo-japonesa; segundo analistas, navio teria carregado valor correspondente a US$ 132 bilhões

 

SEUL – O valor de um tesouro de ouro pode ser pequeno se comparado a perdas monetárias causadas por guerras comerciais ou tarifárias. Mas mesmo em 2018 essas pequenas fortunas ainda têm potencial para chamar a atenção do mundo.

Em 2016, a existência de um trem possivelmente carregado com ouro nazista na Polônia deixou observadores em suspense. Dois anos depois, não há nenhum vestígio do carregamento. A história de caça ao tesouro deste ano pode vir da Coreia do Sul, onde uma empresa afirma ter descoberto um navio de guerra russo a mais de 800 metros da superfície.

As imagens dos destroços foram divulgadas pelo Shinil Group, empresa recém-fundada em Seul. Seus analistas acreditam se tratar do Dmitrii Donskoi, um cruzador russo que desapareceu há 113 anos, durante a guerra russo-japonesa. A empresa estima que o navia carregava cerca de 200 toneladas de ouro, que podem valer até US$ 132 bilhões.

Suposto navio russo encontrado no mar sul-coreano
Foto divulgada pela empresa sul-coreana Shinil Group, que alega ter encontrado destroços de navio russo afundado em 1905. A imagem seria parte da embarcação, localizada a mais de 800 metros abaixo do nível do mar. Foto: Yonhap/via REUTERS

Há várias razões para ceticismo. Há décadas, alegações semelhantes aparecem e supostas descobertas de tesouros no mar já foram utilizadas por pelo menos uma empresa para aumentar o valor de suas ações artificialmente, evitando a falência. Por esse motivo, autoridades sul-coreanas anunciaram que vão monitorar os preços das ações de uma empresa na qual a Shinil investiu recentemente, em busca de possíveis indícios de táticas enganosas.

No passado, pesquisadores russos se demonstraram céticos sobre a alegação de que o Dimitrii Donskoi possa ter transportado toneladas de ouro. Segundo eles, transportar o tesouro por trem seria mais seguro e provável. E a descoberta do naufrágio sequer é novidade. Em 2003, um instituto sul-coreano administrado pelo governo disse que havia encontrado o navio, mas não havia detectado vestígios de possíveis caixas de ouro.

Ao contrário do que empresas fizeram anteriormente quando levantaram especulações sobre o navio russo, a Shinil parece estar disposta a cumprir com a exigência sul-coreana de pagar ao menos 10% do valor estimado do tesouro. Trata-se de um depósito realizado antes do início das operações de recuperação dos destroços. Apesar disso, nenhuma solicitação de depósito foi emitida até agora e o valor que a empresa teria que pagar não foi definido. Caso o governo utilize para o cálculo a alegação de que são US$ 132 bilhões em ouro, a empresa teria que depositar pelo menos US$ 13,2 bilhões.

Filão de mercado

Centenas de empresas por todo o mundo são especializadas em vasculhar os oceanos em busca dos tesouros de até 3 milhões de navios naufragados, segundo estimativas da Unesco. Acredita-se que ao menos 5 mil destes contenham quantidades substanciais de itens valiosos.

Sempre que empresas privadas de caça ao tesouro têm algum sucesso e realmente encontram caixas cheias de ouro ou prata, são grandes as possibilidades de que a descoberta atraia ações judiciais. Geralmente, os países de origem das embarcações ou partes representando interesses privados alegam ter direito sobre parte da fortuna. Mas determinar quem tem direito aos tesouros encontrados no mar é uma decisão complicada e não há resposta definida.

A primeira questão-chave para autoridades é a linha do tempo. Teoricamente, esse critério pode ser favorável à Shinil, já que os indivíduos que possuíam qualquer tesouro escondido nos destroço não estarão mais vivos. Assim a empresa não teria que devolver os bens recuperados e apenas solicitar uma recompensa pela descoberta.

No entanto, a Rússia argumenta que teria propriedade total sobre um tesouro – e a reivindicação seria balizada em lei internacional, desde que não infrinja a soberania da Coreia do Sul. Os Estados podem reivindicar partes dos tesouros se os navios que os transportavam eram estatais ou se as descobertas foram feitas perto de suas margens, em águas territoriais, segundo as especificações da ONU. Cabe a interpretar qual regra se sobrepõe caso haja choque entre as leis.

Se a teoria da Shinil for verdadeira, o naufrágio seria um dos mais impressionantes tesouros descobertos na história recente – e provavelmente mais um motivo para guerra diplomática e legal. / W. POST

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