A mulher não é só vítima. É uma cidadã com direitos.

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Prevenir a violência doméstica e familiar é o objetivo do projeto “Violência contra a mulher: entender para mudar a história”, que nesta segunda-feira, 7, foi retomado pela Casa Abrigo Fátima Diniz (CAFD), instituição gerenciada pela Secretaria de Estado da Inclusão e Mobilização Social (Sims).
A iniciativa busca orientar mulheres de todas as faixas etárias a respeito da violência doméstica. O primeiro evento deste ano ocorreu na Universidade da Maturidade (Unimap), núcleo da Universidade Federal do Amapá (Unifap), que atende mulheres da terceira idade.
A equipe técnica abordou os tipos de violência doméstica e familiar, como identificar comportamentos que caracterizem a violência e como procurar ajuda na Rede de Atendimento à Mulher (RAM), composta por órgãos de proteção e combate à violência, como o Centro de Referência em Atendimento à Mulher (Cram); Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; Defensoria da Mulher do Amapá e Centro de Atendimento à Mulher e à Família (Camuf).
O encontro foi além da palestra, se tornou uma oportunidade para dúvidas, relatos e aconselhamentos. Que o diga a estudante da Universidade da Maturidade, Maria de Araújo, 66 anos, que considerou como um momento de desabafo. Maria ficou encorajada a compartilhar a dura experiência que se submeteu em um relacionamento abusivo por nove anos. E que teve fim quando ela decidiu dar um basta às agressões físicas, denunciando o então marido e se libertando do cárcere emocional.
“Quando ficamos juntos, os filhos que moravam com ele me contaram que ele colocava a mãe deles de joelhos e espancava até sangrar, sem qualquer motivo. Eu não acreditava, pensava que diziam isso para gente se separar. Até que chegou o dia em que aconteceu comigo. Foi difícil de sair, mas eu consegui, pena que muitas não saem vivas”, relatou a ex-vítima.
Marinalva Batista é pedagoga, compõe a equipe técnica da Casa Abrigo Fátima Diniz e é uma das fundadoras do projeto que nasceu em 2015. Ela que reúne o perfil sociodemográfico das acolhidas na CAFD.
A pedagoga conta que esse é um trabalho educativo, preventivo e de empoderamento para que a mulher conheça seus direitos, priorize sua dignidade e vida, sem precisar vivenciar a situação extrema de estar em um abrigo por uma situação de violência. Também é permitido que os homens participem dos encontros para que conheçam seus limites e as consequências de maus tratos às mulheres.
“A mulher não é só vítima. É uma cidadã com direitos. Logo, não pode se sujeitar a esse tipo de situação como se fosse algo normal. Por isso fazemos esse trabalho de conscientização e mudança de realidade. Mas, no final, a escolha sempre será dela”, enfatizou Marinalva Batista.
A partir dessa necessidade de conscientizar as mulheres, a discussão está sendo levada além dos muros que cercam a Casa Abrigo, introduzindo o conhecimento a outras instâncias da sociedade.
“Através desse diálogo franco, combatemos esse mal que assola muitas mulheres, conseguimos identificar e encaminhar, para serviços específicos, aquelas que estão sofrendo violência. E formamos multiplicadores da mensagem que defendemos: que a mulher não pode aceitar nenhum tipo de violência”, reforçou a pedagoga.
Cerca de trinta pessoas participaram do encontro. O próximo vai ocorrer no dia 5 de junho na Unidade de Polícia Comunitária do bairro Pedrinhas, em Macapá. As palestras podem ser solicitadas por escolas, faculdades e outras instituições que queiram abordar o tema.
Como funciona o Abrigo Fátima Diniz
A Casa Abrigo Fátima Diniz há 17 anos trabalha com uma equipe multidisciplinar formada por pedagogas, assistentes sociais, psicólogas e educadoras sociais. Ela existe para acolher mulheres vítimas de violência doméstica com risco de morte, que não possuam outro local que lhe ofereça segurança; maiores de dezoitos anos e vítimas com registro de ocorrência na Delegacia de Crimes contra a Mulher (DCCM) de Macapá ou Santana.
É um espaço de acolhida provisória (de 15 a 180 dias), em caráter sigiloso, destinado ao atendimento de mulheres e filhos (de 0 a 12 anos) que se encontrem em situação de violência doméstica e familiar, com risco de morte.
Presta serviço psicosociopedagógico possibilitando o resgate da autoestima, o fortalecimento emocional, a autonomia, através de atividade como oficinas terapêuticas, artesanais e temáticas, que auxiliam o rompimento do ciclo de violência e garantia de direitos.
Para as abrigadas é restrito qualquer tipo de comunicação com pessoas externas e proibido o uso de celulares, por uma questão de segurança. Durante o período de acolhimento, só é permitida a saída para atendimento médico ou para comparecimento em audiência judicial, com o acompanhamento da psicóloga.
“Nós recebemos mulheres que são encaminhadas pela Delegacia de Crimes contra a Mulher e Juizado de Violência Doméstica e Familiar. É uma medida protetiva de última instância para os casos que exigem a total segurança da vítima”, explicou a assistente administrativa do abrigo, Ingrid Souza.
Passado o período de estadia no abrigo, a mulher continua recebendo suporte do CAFD, que encaminha a vítima aos serviços da Rede de Atendimento à Mulher, para capacitação e inserção no mercado de trabalho, acompanhamento e assistência à saúde, assistência jurídica, entre outros.
De acordo com a gerente do Abrigo, Maria do Carmo Góes, desde fevereiro deste ano, a casa não recebe abrigadas. Segundo ela, o motivo seria a rejeição por parte das vítimas de ficar num lugar sem direito à comunicação. Sem contar na recaída emocional em voltar ao ambiente de agressão.
“Por isso, estamos retomando o trabalho de conscientização fora do abrigo. Queremos mudar essa realidade, para que todas tenham acesso à informação e ajuda para, que cada vez mais, o fluxo de acolhimento no Fátima Diniz diminua. Mas, por motivos diferentes como a redução da violência e o aumento do amor familiar”, ressaltou Maria do Carmo.
A capacidade de acolhimento é de quatro mulheres e seis crianças por período. Anualmente, uma média de 25 mulheres são acolhidas.
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Créditos:
José Baia / Secom