Discriminação agrava impactos da pandemia sobre a população LGBTQIA+, afirma especialista em Psicologia da Fama

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Pesquisa do coletivo #VoteLGBT aponta que piora da saúde mental, desemprego e distanciamento da rede de apoio são os principais problemas potencializados pela pandemia

Macapá, agosto de 2020 – Em meio à pandemia que ainda assola o País, a população LGBTQIA+ tem sofrido de maneira específica os impactos do isolamento, principalmente, em três pontos: piora da saúde mental, falta de fonte de renda e afastamento da rede de apoio. A informação é do Diagnóstico LGBT+ na Pandemia, pesquisa conduzida pelo coletivo #VoteLGBT e publicada em junho, que ainda mostra que os problemas de saúde mental foram considerados a maior preocupação para bissexuais e pansexuais (47%), lésbicas (44%), transexuais (42%) e gays (34%).

Celestino Galvão, psicólogo, doutor em Saúde Pública e docente do curso de Psicologia da Faculdade de Macapá (Fama), afirma que a saúde mental desses brasileiros pode ser prejudicada pela convivência com pessoas que reproduzem discursos e atitudes discriminatórias dentro de casa. “Há questões inerentes aos estigmas e ao preconceito sofrido pelos LGBTQIA+, tendo em vista que existe uma grande dificuldade de aceitação por parte das famílias das vivências sexuais e/ou afetivas desses sujeitos, colocando-os em situações de violência física e psicológica, fruto da LGBTfobia. Dessa forma, a impossibilidade de sair de casa os coloca em uma situação de convívio extremo com seus ‘algozes’ e esse pode ser um dos fatores de grande impacto”, comenta.

Ainda nesse cenário, de acordo com a pesquisa, 28% dos entrevistados afirmaram já ter recebido diagnóstico prévio de depressão, marca quatro vezes maior do que a média da população total do país. “A LGBTfobia é expressa pela sociedade, que os fere, os mata e retira seus direitos enquanto cidadãos, tornando-a fator preponderante para o desenvolvimento da doença mental. Visto que essas atitudes da sociedade não são ações exclusivas do período da pandemia, a LGBTfobia é algo estrutural na sociedade e, assim como o racismo e o machismo, possui uma herança histórica”, complementa Celestino.

Outro ponto sensível do estudo, o desemprego nesse grupo populacional tem taxa preocupante: 21,6% dos entrevistados estão desempregados, enquanto o índice nacional é de 12,2% – cenário existente mesmo antes do início da pandemia, com a recolocação no mercado já prejudicada pelo preconceito estrutural enraizado. “A LGBTfobia se apresenta de diversas formas, indo da exclusão de pessoas trans por considerarem corpos que não importam, não existem e até que causam estranheza, até a padronização corporal e atitudinal, como é o caso das performances de gênero que excluem pessoas gays, lésbicas e bissexuais que não são considerados ‘passáveis’, ou seja, que não correspondem ao que se espera de um homem ou mulher. Dessa forma, a inserção no mercado de trabalho torna-se mais difícil para essas pessoas”, pondera o docente da Fama.

O trio de maiores impactos da pandemia citados pela população LGBTQIA+ se completa com o afastamento físico da rede de apoio, isto é, pessoas que dão segurança, apoio e suporte social e emocional a esse grupo, que, mesmo em tempos normais, pode se sentir isolado da sociedade. “A rede de apoio dessas pessoas, em sua maioria, é formada por amigos e pessoas do movimento, ou seja, nesse momento de pandemia os encontros presenciais estão praticamente escassos. Por isso, muitas pessoas dessa população encontram-se em situação de extrema vulnerabilidade, pois sua principal válvula de escape de ambientes hostis, LGBTfóbicos, não pode ser acessada da mesma forma que antes da pandemia”, prossegue Celestino.

Saúde mental em foco
Para o docente da Fama, a reversão desse cenário de saúde mental requer, em primeiro lugar, a execução de forma completa e consistente da Política Nacional de Saúde Integral da População LGBTQIA+, “que entrou em vigor no ano de 2018, mas que caminha a passos curtos no seu desenvolvimento e aplicação”. “Em menor escala, no âmbito da profissão de psicólogo, o que nos cabe é um atendimento humanizado e ético. Enquanto sujeitos pertencentes à sociedade, basta que respeitemos a diversidade de ser e existir”, encerra.

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