“Teremos a vacina em janeiro ou fevereiro”, diz cientista da J&J que pesquisa a imunização à Covid-19

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Em sua primeira entrevista a um veículo de comunicação da América Latina desde que iniciou os testes da vacina contra a Covid-19, Paul Stoffels se mostra otimista com o avanço do processo. Ele conta ao NeoFeed todos os detalhes do bilionário projeto que pode “salvar” o mundo

 

O médico belga Dr. Paul Stoffels mora e trabalha nos Estados Unidos

O começo do fim está próximo: o médico belga Paul Stoffels, vice-presidente do Comitê Executivo e Chief Scientific Officer da Johnson & Johnson (J&J), afirma que, entre janeiro e fevereiro de 2021, as primeiras doses da vacina contra a Covid-19 devem estar disponíveis em caráter de urgência para, por exemplo, profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate ao novo coronavírus.

“Estamos expandindo nossas estruturas para conseguir produzir dezenas de milhões de vacinas de alta qualidade mensalmente, mas é um trabalho em processo”, disse Stoffels, com exclusividade ao NeoFeed, em sua primeira entrevista a um veículo de comunicação latino-americano

Especialista em HIV e doenças tropicais, Stoffels tem passado até 16 horas por dia trabalhando para cumprir a missão – e a promessa – de imunizar um bilhão de pessoas o quanto antes.

Pelo menos foi esse o acordo firmado com o governo americano. A equipe de Donald Trump concordou em entrar com US$ 421 milhões do US$ 1 bilhão necessário para que a Johnson & Johnson expanda sua capacidade de produção e cumpra esse objetivo.

O médico, que mora nos Estados Unidos, destaca a união de forças de governos e iniciativas privadas, e faz questão de resgatar a esperança de quem, direta ou indiretamente, sofre com a crise que estamos vivendo.

“Gostaria de deixá-los com esperança: isso vai ter um fim. Tem muita gente trabalhando para que encontremos alívio o quanto antes.” Acompanhe a entrevista exclusiva de Stoffels ao NeoFeed:

Doutor, a pergunta que todos se fazem: quando teremos a vacina?
Teremos os dados clínicos no final deste ano ou no começo do ano que vem. Então, acredito que, para casos emergenciais, conseguiremos ter a vacina em janeiro ou fevereiro.

Mas em qual estágio estamos agora?
Em meados de janeiro recebemos o “chamado” para fazer a vacina. No final de março, selecionamos a fórmula “vencedora”, porque tínhamos várias vacinas sendo avaliadas em paralelo, para entender como ela se comportaria em organismos animais e também nas fábricas. Selecionamos uma que é agora a nossa principal aposta e que está no que chamamos de testes pré-clínicos, em que aprendemos sobre a segurança e eficiência em vários modelos diferentes. Enquanto isso, também estamos focados em aumentar a capacidade de produção. Sabemos que na primeira semana de setembro começaremos os testes clínicos e estamos trabalhando duro para ter os primeiros dados clínicos até o final do ano. Isso pode levar a usos emergenciais.

E quem determina os casos emergenciais?
Os agentes regulatórios internacionais de saúde.

Seria possível prever quando teremos a vacina no Brasil?
Não, não podemos afirmar nada em relação a isso, porque não é responsabilidade nossa, como empresa, dizer quem deve receber as primeiras vacinas. Mas vamos trabalhar com as autoridades para que seja feito de forma eficiente para evitar mortes. Essa estratégia global será coordenada pelos agentes competentes. O que podemos dizer é que um belo trabalho está sendo feito pela comunidade internacional, incluindo a Organização Mundial de Saúde, para determinar como as vacinas serão usadas no mundo.

E qual a capacidade de produção dessa vacina?
Nosso objetivo é chegar a 1 bilhão de vacinas, mas isso vai levar algum tempo. Estamos expandindo nossas estruturas para conseguir produzir dezenas de milhões de vacinas de alta qualidade mensalmente, mas é um trabalho em processo.

“Nosso objetivo é chegar a 1 bilhão de vacinas, mas isso vai levar algum tempo”

Sua rotina mudou muito desde que essa crise se instaurou?
Não tenho mais perdido tempo com viagens e não preciso mais lidar com jetlag. Agora trabalho 14/16 horas por dia, porque temos muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Além das pesquisas da vacina contra a Covid-19, ainda trabalhamos em medicamentos contra o câncer, doenças infecciosas e outras propostas. Temos uma parte da equipe trabalhando remotamente, mas outros profissionais continuam indo ao laboratório. Então é um desafio fazer com que tudo dê certo simultaneamente.

Quantas pessoas trabalham neste projeto da vacina contra o coronavírus?
Acho que, se você olhar para o time todo, contaria mil pessoas. Estimo que, talvez, em três ou cinco semanas, dobremos o número da equipe. Fazer uma vacina em 12 meses, para uma pandemia dessa magnitude, é muita coisa. Mas tenho que destacar o ânimo e o empenho da equipe, que não reclama das longas jornadas de trabalho. Estamos todos muito alinhados, sabemos o que fazer a cada hora, a cada dia, até o final do ano.

A Johnson & Johnson firmou uma parceria com o governo de Donald Trump, que vai aportar US$ 421 milhões para que a empresa construa uma nova fábrica em solo americano. Como têm sido os diálogos com a Casa Branca?
É um ambiente muito colaborativo. O órgão governamental Autoridade de Desenvolvimento e Pesquisas Avançadas de Biomedicina (BARDA, na sigla em inglês) conta com especialistas nessa área de vacinas e já trabalhamos juntos em outras ocasiões. Fomos parceiros na luta contra a Ebola e trabalhamos lado a lado para combater a influenza. Eles têm uma equipe forte, com ótimos analistas e conselheiros, mas talvez o mais importante seja o tratamento direto com o FDA (órgão americano equivalente à Anvisa brasileira). Além disso, essa proximidade nos ajuda também a dialogar com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e o Instituto Nacional de Saúde (NIH), que nos ajuda na triagem clínica. Trabalhar com o governo é fundamental para ganharmos agilidade.

Muito tem sido falado sobre a união da comunidade científica e médica. Essa colaboração é mesmo inédita?
Nós trabalhamos todos juntos o tempo todo. Historicamente, o que mais se aproxima do que estamos vivendo hoje foi a crise do HIV. Para enfrentar a AIDS, médicos, pacientes, farmacêuticos e governos atuaram conjuntamente, com rapidez, para encontrar uma solução. Aprendemos muito com isso e aplicamos as lições nas pesquisas contra o câncer. Tanto que hoje é possível ter uma nova droga aprovada em dois ou três anos porque trabalhamos juntos. Algumas pessoas pensam que companhias são entidades isoladas, mas não é verdade. Somos e estamos integrados à comunidade científica e médica. Claro que nessa escala que estamos vivendo agora é sem precedentes, porque estamos falando de uma pandemia como não víamos há um século.

Entre tomar a injeção e ter o organismo imunizado leva-se tempo. Já é possível saber quanto tempo demoraria para uma pessoa tomar a vacina e estar “blindada” contra o coronavírus?
Ainda estamos avaliando, mas estimamos que entre quatro e duas semanas. Diria que, para a proteção total, quatro semanas.

Achamos que uma dose poderá proteger um indivíduo por um ou dois anos

E seria uma dose única para imunidade vitalícia?
Provavelmente será necessário mais de uma dose. Achamos que uma dose poderá proteger um indivíduo por um ou dois anos, mas provavelmente mais injeções serão necessárias. Tudo depende da tecnologia e ainda estamos trabalhando para saber essas respostas.

Há alguns dias, pesquisadores indianos apontaram mutações significativas no vírus, isso pode ameaçar a eficiência da vacina e o desenvolvimento dos testes?
Ainda não sabemos se isso vai ter impacto na vacina e não sou o especialista para dizer o quanto o vírus precisa mudar para que tenhamos que buscar outras fórmulas. O que posso afirmar é que estamos monitorando tudo isso com bastante cuidado e que vamos fazer novas versões quando necessário. Assim como a influenza muda todo ano ou a cada dois anos e você precisa de pequenas modificações na vacina, que são rapidamente feitas e aprovadas, talvez tenhamos que adotar a mesma estratégia. Encontraremos a solução quando o problema surgir.

A busca pela vacina contra o coronavírus me parece cheia de exceções, com órgãos “relaxando” certos protocolos. Do ponto de vista dos bastidores, quais seriam os maiores diferenciais desse processo?
Acho que o tempo. Os reguladores se colocaram disponíveis imediatamente. Nos primeiros meses de trabalho, planejávamos começar os testes clínicos em novembro/dezembro, mas conseguimos “cortar” três meses graças à eficiência dessa troca. Quando mandamos um documento, eles nos respondem em poucos dias. Tem sido uma colaboração muito produtiva e eficiente. Claro que eles não podem fazer isso para todos os casos e remédios. Estão fazendo isso porque é uma pandemia.

Sabemos tudo o que precisamos sobre o vírus?
Essa é a questão-chave: não sabemos tudo sobre o vírus e por isso é tão desafiador prever o que podemos fazer em termos de vacinas e tratamentos. Esperamos que com a vacina certa possamos evitar o contágio ou a manifestação do vírus, mas temos que esperar até termos os resultados dos testes.

Em geral, me parece que grandes indústrias farmacêuticas e outras clínicas do setor são um tanto quanto restritivas quanto a pesquisas e desenvolvimento. Algo mudou nesse sentido?
A primeira coisa que fazemos é compartilhar muito, se não toda, informação que levantamos. Não diria que estamos numa competição exatamente, mas uma corrida para resolver um problema. Espero que 3, 4 ou 5 vacinas funcionem e entrem em produção, porque, se todo mundo precisar dessa injeção, não teremos como atender à população mundial. Além disso, quanto mais testes, melhor: mais chances de uma dar certo. No final das contas, acho essa “concorrência” muito positiva.

Você diria que as pesquisas da Johnson & Johnson são as mais avançadas? Seriam vocês os mais próximos da vacina?
Não podemos dizer isso, ainda estamos em testes. Mas sei que usamos uma tecnologia que leva mais tempo para chegar à clínica, mas, em compensação, otimiza a produção.

Tanto interesse público, tantos casos confirmados, soam como pressão? Como tem lidado com isso e o que significa, para sua carreira, estar liderando essas pesquisas?
Sou um médico e sempre estive focado em tratar pacientes. Trabalhei nas análises do HIV e sei que, como pesquisador, você multiplica a capacidade de ter impacto na vida das pessoas. Agora, não existe palavra para dizer quão única é a possibilidade de ter impacto em bilhões de pessoas. Não é pressão, é missão. E não sou só eu que penso assim: meu time começou a trabalhar nessas pesquisas sem que precisasse pedir. Quando chegou a hora, eles já estavam discutindo com acadêmicos e pensando maneiras de agilizar o processo. Somos motivados em fazer a diferença no mundo.

E qual recado gostaria de deixar às bilhões de pessoas que aguardam a vacina?
Gostaria de deixá-los com esperança: isso vai ter um fim. Tem muita gente trabalhando para que encontremos alívio o quanto antes.

JP